terça-feira, 25 de março de 2008

Toda robustez e toda rebuscada

Amo de amor que sente sede mesmo bebendo um rio puro, límpido, insípido.
Amo de amor de vinho, mas sem sair da sobriedade.
Amo de pés que não aguentam o peito.Amo de escritos de carvão.De estrelas que brilham mortas.
Amo de areia que chupa sal. De fios que sangram vermelho a boca pálida.De guache que borra tinta.De café.De vapor.De xícara.De borra.De insônia.
Meu colchão que sente sede, na verdade.

Destreza

Não sinto como deveria sentir.A falha é minha por falta sua.Não quero sentir asco, mas não sei como continuar.
Prefiro me fazer sentir saudade, para ver se é.
Posso confundir e girar e dançar e no final não sei como.Não sei daqui horas e nem como acordarei, se sentirei cócegas nas mãos ou cãibra nos pés.
Mando por falta. Falta controle. Fenda na parede branca.Perfeição circulada pela balbúrdia , sem molde.Falta minha.
Falta ares, perfeição, paixão, intensidade.
Você não é exatamente o que eu preciso.Mas cadê seu falha?
Acho.É falta de destreza.

Périplo urbano

(1494-1750)

A falta de sentido permeia os pés calçados e as cabeças enchapeladas.Não pense, continue somente andando pelas calçadas desenhadas.mudas.desgrenhadas.
Os dedos tocam os portões grafite cerrados.Os trevos nascem nas rachas.O monóxido sai dos canos traseiros.
Tudo é desprovido de sentido, até que as árvores chacoalham ventando e chovendo pedacinhos amarelos.Pronto.Fez- se a luz.
A dissertação mutila e a poesia cicatriza

Sabinada ( ou Estrebaria)

Mote: "Prefiro um asno que me carregue a um cavalo que me derrube."




De quando eu amava um cavalo, até que o mandei pastar.Hoje sou Inês Pereira.




Sem que seja possível escrever, ele pega o lápis e rabisca uma pauta. Sem que seja possível ver, ele observa e sente o lastro.
Mesmo que esteja olhando para o chão ele bebe, engole com força, peristalticamente. Mas já não há o porquê mais. Mas eu sempre digo mas e mais e mais porques. Esqueço os motivos e os grãos que o vento leva. Abro os olhos antes de dormir, sem força, voluntariamente. Têm cores no teto, têm pontos no ar.
A cortina esconde o quadro.Ele as fecha antes de dormir. Ele deita as pedras, mancha nas roupas, costura máquinas, veste estopa.
Ele não é real.Ele não é regência.
Resenha nos quadros, estona mãos. Não sabe nada. Soa notas e sua uréia. Cospe bala, coronel.
E os cavalos fogem relinchando. Até que em fim. E o fim é sempre mesmo.

terça-feira, 11 de março de 2008

Cotelê

Depois do veludo vermelho e da maçã de outono, chega o "Eu te amo".

sábado, 8 de março de 2008

Hepatite

Nasceu um nojo dentro de mim, e você o cultivou, como urtiga em terra seca. Meu interior deseja escrotar, na lembraça de sua pele.Seu cheiro é podrido.
Praguejo: não consiguirás o que mais deseja com teu egoísmo perfídio.não terás quem sonhas pois exala enxofre.Sou mais ampla sem e que você.
Desconheces a troca, valorizas demasiadamente seu fedor mundano.Querem-lhe o mais longe possível.
Só me resta, agora, sentir dó.Mas nem compaixão sinto.Na verdade me divirto com sua insolidez incapaz.Prefiro um café sem açúcar, obrigada.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Campos e Limbo

Mesmo com toda a aparente posse do ser e da liberdade, que existe ao se livrar das regras para ser mais alguém, mesmo a um passo de ser alguém...Sendo quase possível descrever a si próprio, eis que surge um limbo.
Mas um limbo daqueles pegajosos que constroem toda uma outra pessoa.Uma pessoa.Um alguém.Que existe.
E mesmo com esse limbo você continua sendo esse alguém miserável e sem a aparente liberdade.Aparente por nunca existiu, nem existirá.
A um passo de descobrir que todas as sensações são placebo.
Na verdade nada de que você importa, importa realmente.Você só é uma vida no meio de todas outras.Lindas,lindas vidas.